quarta-feira, 18 de maio de 2011

Bom dia!

Todo dia de manhã eu chegava pra trabalhar e aquela voz soava:


- Bom dia!


Na maioria das vezes, no auge da minha amargura, eu simplesmente passava reto, fingia não ouvir, na esperança de que no dia seguinte aquele martírio não se repetiria. Eu odiava ter que falar com alguém no caminho até minha mesa. Meu serviço era solitário, assim como eu, e eu não via necessidade das coisas serem diferentes. Eu queria a solidão, e então ela me abraçava com seus braços vazios. Mas os outros pareciam não entender, e toda manhã aquela mesma voz repetia:


- Bom dia!


Alguns dias em que o bom humor me acompanhava, eu até respondia. Talvez fosse este o meu mal. Dava brechas. Deixava em aberto a sensação de que eu era acessível, que eu até conversaria, se viessem até mim. Mas a verdade é que nada me atingia, ninguém me importava, e eu odiava ter que dar bom dia para alguém que eu mal conhecia, alguém que eu sabia simplesmente que, assim como eu, passava boa parte da sua vida sentada numa mesa separada de todas as outras pessoas. Meu maior mal era ter o caminho que levava da rua até a minha mesa atravessando exatamente a sala onde ela ficava, a mesma maldita sala onde todos os dias eu tinha que passar, sempre torcendo pra que ela estivesse doente, em casa, ou mesmo no banheiro, cagando ou fodendo com algum colega de serviço. Mas isso nunca acontecia, e todos os dias aquela mesma ladainha se repetia. Eu saia de casa já nervoso, sabendo que em pouco menos de duas horas eu seria confrontado com esse estúpido "bom dia" que não me deixava ficar descansado.


Ela nem bonita era. No começo eu não pensei muito a respeito, mas ficava incomodado. Eu trabalhava alí já faziam muitos anos, e aquela mesa era sempre a mesma mesa vazia. Quem diria que um dia os grandes mandantes do serviço público contratariam alguém pra cuidar daquele arquivo velho, sujo e esquecido? Eu mesmo jamais havia pensado na possibilidade, e aqueles foram anos felizes, onde eu não encontrava ninguém entre o caminho que eu fazia de casa até a minha mesa de trabalho. Ao menos ninguém que me conhecia. De vez em quando pessoas tentavam falar comigo. No metrô, pessoas de idade vinham falar dos seus problemas ou de qualquer assunto trivial que uma pessoa de idade possa vir a tratar, mas não me interessava. Eu não me interessava nem por assuntos de pessoas interessantes, imagina de uma geração anterior à minha, de tantos preconceitos e opiniões desimportantes! E eu me espelhava neles. Sempre cheio de preconceitos e assuntos desimportantes, eu me via neles. E não gostava. E eu sempre via meus defeitos nos outros, afinal, não era só pessoas de idade que me atazanavam. Até mães com crianças no colo me incomodavam. Eu odiava esse tipo de gente que acredita que, porque está com um filho no colo, se achava no direito de falar dos outros.


- Olha filhinho, o titio tá lendo uma revista, pergunta pra ele que revista é!

- É Anal Total, minha senhora.


Ou ainda aquelas que ficavam com o nenê virado pra mim, mexendo nas minhas coisas enquanto ela, apaticamente, só falavam:


- Filho, não mexe nas coisas do titio.


Ora, muito da minha raiva era catalisada, praticamente drenada, nestas situações. O que me deixava disposto pra trabalhar em paz. Não havia incômodos no serviço que fossem maiores que os incômodos que a humanidade, que os seres humanos me propunham e me submetiam. Trabalhar era tranquilo, difícil era me adaptar à vida. E então, como uma barragem que se rompe, inundando a calma das pradarias, aquela mesa foi limpa, e um computador foi instalado, uma cadeira nova foi trazida, e uma voz que se tornou meu martírio também se instalou naquela mesa. Todo dia ela soava pra mim, como as trombetas dos portões do inferno:


- Bom dia!


Eu já começava a não achar mais os dias bons. Começava a me incomodar aquela história de ter que dar bom dia todas as manhãs, afinal, meus dias eram bons, e eu não queria ninguém me desejando algo do qual eu já usufruísse. Comecei a perceber que eu já não trabalhava mais da maneira que eu deveria, disposto e com vontade. Comecei a tomar café em excesso, talvez um reflexo da minha angústia que se abatia sobre mim como um urubu, uma doença que se acometia contra mim como uma provocação. Comecei a vir trabalhar com vontade de não vir, ou de criar um buraco na parede pra não ter de atravessar aquela sala. Pensei em comunicar à chefia, mas o que eu poderia dizer? Que não queria aquela funcionária alí porque meus caprichos me impediam de me relacionar com uma voz me dando bom dia? O que eu poderia fazer, além de fazer de conta que aquela voz fosse um fantasma, uma assombração que pairou sobre meu setor, um sopro de ar que escapou da rua e se infiltrou pela janela? Eu poderia muito bem correr dalí. Eu poderia sumir. Eu poderia... eu poderia... lavar as mãos. O sangue escorria. Lavaria minhas mãos na bacia de Pilatos. Sim, era isso que eu faria. Arrancaria a faca de seu pescoço, tão logo o corpo se tornasse inerte, desesperado, golfando sangue para todos os lados. Eu arrancaria então aquelas cordas vocais, daria bom dia à elas! Eu poderia dormir com o som da garganta sendo perfurada, aquele grito rouco que se perde por não achar mais a saída, que engasga na garganta. Um som borbulhante, o grito silencioso da dor dilacerante arrancado de suas entranhas, a visão de dois olhos perdendo o brilho em meio ao sofrimento.


No dia em que eu sair daqui onde estou hoje, deste quarto branco e solitário, poderei finalmente trabalhar em paz.



sexta-feira, 31 de julho de 2009

Mim gosta ganhar dinheiro



Fui comentar lá no blog do Luciano Assmann num texto sobre dinheiro que ele publicou, e como eu não escrevia nada aqui a um bom tempo e gostei muito do meu comentário, acho que vou colocar ele aqui pra todo mundo ler.
Ele falava sobre o dinheiro e sua condição inerente de ser "o culpado dos problemas do mundo", quando na verdade não é tudo aquilo, e aquela situação de reclamar das pessoas que ganham bem e trabalham pouco, enquanto outros trabalham muito e ganham pouco.
Lá vai então:

"Eu só falo mal dos filhos de grandes empresários e gente bem abonada que não ganho seu dinheiro por merecer, e sim porque o pai é bem sucedido.
Conheço muitos assim, e normalmente esses não dão valor ao dinheiro da maneira correta, esbanjam sem pensar no que faz (vide um video gravado na noite de porto alegre - isso tem no youtube -, onde pessoas desse tipo RASGAM uma nota de R$50,00 ao serem questionados se rasgariam dinheiro depois de pagar R$300,00 numa garrafa de vodka (em uma festa) que custa R$10 pila no mercado), e possuem um bom emprego não porque estudaram e mereceram, mas sim porque a empresa é da familia.

Já tem outros que são uns pelados e reclamam do dinheiro porque é tudo uma "armação governamental que quer dominar o mundo e optando por querer dinheiro nos tornamos escravos desse sistema". Na verdade se encontrassem R$1,00 no chão seriam os primeiros a sair correndo pra pegar.

O dinheiro é rodeado por falsos moralistas e bon vivants.

Eu pessoalmente quero mesmo é ganhar meu dinheiro, comprar minhas coisinhas, sendo um bom capitalista, batalhando pra conseguir um emprego melhor e ganhar MAIS grana."

Tem muita gente mediocre nesse mundo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Intelectualidade Não Combina com Metrô

Sabe que às vezes me dá uma louca de querer me aparecer a qualquer custo, e parece que por mais que eu faça, todas as minhas tentativas se vão com o vento. Ninguém me dá bola alguma, e fico eu lá, com vergonha de mim mesmo por todos os outros, que não viram nada, e por isso mesmo não podem sentir vergonha.
Às vezes também quero parecer intelectual, e fico lendo coisas difíceis no metrô, e acabo lendo mais pros outros do que pra mim, pois fico tentando fazer as pessoas engolirem um eu que não existe, que é o de ser um cara superinteligente que lê literatura beat por vezes, outras vezes poetas clássicos... crio toda uma encenação muito superficial em volta de mim, e não consigo enxergar que eu mesmo, quando vejo alguém lendo essas mesmas coisas no metrô, o considero um panaca, porque provavelmente ele também está querendo se achar.
Gente, metro é pra ler jornal! Não é pra ficar se lendo os grandes clássicos da literatura. Cadê o lado romântico de se ler Shakespeare à luz de velas, sentado em frente à uma janela que deixa penetrar os raios da lua, embebido em um silêncio ensurdecedor? Cadê o romantismo de sentar numa praça segurando um livro de poemas do Mário Quintana?
Tá no lixo, é claro. O momento é de se ler Foucault no sacolejo sensual do trem. o momento é de encarar os Lusiadas sem um dicionário enquanto se perde nas estrofes a cada "...ESTAÇÃO PARÃRÃ..". É um momento iluminado para se ler Cyrano de Bergerac chegando à lua enquanto uma velha gorda esfrega a bunda na sua cabeça, escorada no seu banco. Ah gente... faça-me o favor.
Que leiam Bukowski então. Que leiam a revista MAD.
Mas não façam como eu: não tentem se aparecer. Pelo menos não na minha frente.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Estabelecendo uma Conversa sem Noção

É força do hábito não ocorrer muita conversa quando um grupo de amigos se reune para conversar. Salvo quando o encontro é casual. Se alguém decidir "vamos nos encontrar para conversar", é mortal: vai faltar conversa. Pensando nisso e também em outras coisas, foi criada por mim, pelo Cristian e pela Legião (porque são muitos) uma nova técnica de conversa, onde o que se busca é preencher o tempo com papo furado e se divertir.
A principio, para se introduzir a técnica, bastou a seguinte pergunta:
"- Se você montasse um bar, qual seria o nome dele?"
Após momentos de silêncio, sempre vinha algo como "Tumba do Rock", "Pregadores do Rock", "Abrimos Domingo Bar Rock Clube", entre outros. É necessário se esmeirar nesse momento. E é legal notar que, apartir desse momento, todos ficarão pensando insistentemente em nomes pro bar, alguns ridículamente engraçados, outros tão idiotas que o sorriso vem na hora às faces alheias.
Depois de ultrapassado esse ponto, é provável que a conversa descambe pra algo como:
"- Como você vai rock clube?"
"- Eu vou bem rock clube."
"- Vou buscar uma bebida pra nós rock clube."
E assim sucessivamente.
Por mais besta que pareça, rende uma conversa que se extende até o limite do tempo programado e as risadas são garantidas.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Eu hein???




Através do "Extreme Tracking" eu posso visualizar os computadores que entraram aqui no meu blog. Ele mostra a cidade, o IP, o sistema operacional, e o mais engraçado: os critérios que direcionaram a pesquisa da pessoa em questão para o meu blog.

Entre eles, um me chamou bastante a atenção: uma pessoa de Diadema, São Paulo, no dia 19 de abril desse ano, achou meu site após fazer uma pesquisa de imagem por "punheta entre amigos".

AHAHAHAHAH. A imagem que ele achou aqui (sabe-se lá porque) foi a foto da capa do disco do Suede, aquela que tem dois "homens" se beijando.

Fica a pergunta no ar... será que ele tava a fim, ou a sessão já tinha rolado?

A foto ai em cima é a de um japonês que se tornou campeão de punheta, em algum concurso que eu nem quero saber dos detalhes.

domingo, 19 de abril de 2009

Um post sério...



Resenha




A quebra dos paradigmas no cinema de Méliès

Eduardo Reis Oliveira¹


Os paradigmas são noções da realidade arraigados no pensamento humano. Portanto, é uma noção de que o passado estava correto, e acabamos perdendo a visão de que existem outras maneiras de se atingirem objetivos ainda maiores, apenas mudando certos conceitos que possuímos. Muitas vezes isso acontece por medo de fracassar, afinal, o passado é muito cômodo e nos deu a oportunidade de fazermos tudo sem cometer erros (pois eles já foram cometidos muito antes), e pensar em mudar os planos é como atirar no escuro, correndo o perigo de se tropeçar em novos erros até então desconhecidos aos olhos. Para ilustrar estas informações, temos o privilégio, através do Youtube (que por si só é uma quebra de paradigmas), de assistir a um filme de 13 minutos e 20 segundos chamado "El Viaje a la Luna", do cinegrafista Georges Méliès. Méliès com seu pensamento emergente, conseguiu prever muita coisa do que seria criado no cinema anos depois. Suas técnicas eram muito mais estudadas e pensadas do que as idéias dos cineastas da época, que eram poucos, e que muito pouco acrescentaram ao cinema, a não ser novas imagens em movimento. Podemos dizer que Méliès se libertou das limitações por olhar para a frente e ter coragem.
O filme em questão já começa apresentando o que seria a quebra de um paradigma. Um velho membro do Clube das Armas apresenta à seus companheiros sua idéia de "dar um tiro na lua" para mostrar a todos o poder do clube, a qual é rechaçada pelos mesmos, que não compreendem seus ideais e estão com seus velhos pensamentos clássicos. Após momentos de discussão, o cientista consegue enfim convencer a todos de que seus pensamentos estão certos, e que a vivência do passado está cegando os olhos deles para o que poderá vir no futuro (devo dizer que não foi através do filme que entendi isso, e sim pelo livro escrito pelo Júlio Verne, "Da Terra à Lua", que é influência explícita neste filme). Após esta cena, a nova quebra de paradigmas: mostra-se a "nave", em formato de bala de revólver, e seu interior oco: um dos membros do clube pede para ser enviado à lua, dentro da bala, o que deixa os membros ainda mais alvoroçados, negando a idéia, mas depois, mais uma vez as aceitando. Aqui já fica bem claro como as pessoas lidam com os novos paradigmas: no princípio ignoram, não aceitam. Mas logo que lhes abrem o pensamento, passam a aceitá-los e a admirá-los. Um grupo de homens então são enviados à lua. E aqui Méliès apresenta seus novos paradigmas: o de que uma câmera não serve apenas pra filmar imagens em movimento, mas sim, que sirva para criar imagens até então não vistas, através de novas técnicas de filmagem. Uma lua com um rosto é atingida em cheio pela bala disparada da Terra, e a história então se emancipa do livro do Julio Verne, dando início ao primeiro filme de ficção cientifica produzido na história. Guarda-chuvas que viram cogumelos ao entrar em contato com o chão, estrelas e planetas que possuem vida, e, muito antes do primeiro avistamento oficial de um OVNI (em 1947), Méliès nos apresenta uma colônia extraterrestre! E aqui eis um ponto que Méliès nos apresenta um paradigma que possuímos até hoje: a de que as colônias extraterrenas possui uma política imperial. E mostra também um paradigma que já deixamos pra trás (ou pelo menos algumas pessoas): de que os extraterrestres (se é que existem) são seres violentos e monstruosos. Estes são pensamentos típicos da época que Méliès viveu, e que nos leva a pensar na necessidade urgente de se quebrar paradigmas velhos como estes, mas que continuam vivos em nossas cabeças.
O final do filme é um pouco confuso. A lua é redonda, mas para voltar pra Terra eles entram no foguete novamente e "pulam" de um precipício, caindo no mar, na Terra. E aqui, mais uma inovação: uma cena "dentro da água", com peixes e tudo mais. Logo depois, o resgate dos tripulantes e a consagração dos mesmos.
Por essa visão futurista e sua maneira de repensar a forma de criar um filme, Méliès causou um impacto suficiente para ser considerado um revolucionário nas técnicas de filmagem. Teve a coragem de por em prática o que nunca ninguém tinha feito. Acreditou na sua idéia e seguiu em frente. E por essa sua coragem para quebrar os paradigmas clássicos, se tornou um dos maiores cinegrafistas da história do cinema.

¹Aluno da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Resenha realizada como trabalho para a cadeira de Metodologia da Pesquisa Aplicada às Ciências da Informação. Porto Alegre, abril de 2009. Email: eduverme@gmail.com


Referências

http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/cinema/leonardo_cinema_1
http://www.youtube.com/watch?v=W8oy9CL0SPw
http://cinemacultura.blogspot.com/2008/07/star-mlis-coleo-direo-george-mlis.html
http://www.massarani.com.br/FGHQ-ViagemaLua-Melies.html

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Modernidades da Vida Moderna

Saiu o novo CD do Depeche Mode.
Ou pelo menos eu acho que saiu. Com essa premissa de te dar tudo o que ainda não existe, a INTERNET me deixou à inteira disposição o CD inteiro, antes mesmo que o pobre coitado tenha visto a luz do dia.
Entre versões demo, versões completas surrupiadas, e versões toscas, rapidamente baixei o CD pelo rapidshare e entupo meus ouvidos todos os dias com a maravilhosa sonoridade desta que é, sem sombra de dúvidas, minha banda favorita já a um bom tempo.

Também vem ai o novo do Marilyn Manson, com a volta do baixista Twiggy, e também nem saiu e já tenho metade do CD no meu computador. Maravilhas da cibernética.
O que seria de mim sem Internet hoje? Lembro quando era mais piá (aliás, na verdade até a bem pouco tempo atrás.. tá certo que tenho 25, mas nunca deixei de ser um piá), que eu ficava me matando pra conseguir gravar determinada música em alguma rádio, e sempre pegava a música um pouco depois do começo, por nunca me dar por conta de que a tal música já estava tocando. Eu tinha caixas e mais caixas de fitas cassetes. Hoje minha namorada me pergunta pra que serviam aquelas fitas, e se apavora quando eu digo que dava pra gravar músicas do rádio nelas. Incrível. Tem gente que perdeu a melhor parte da vida.

Hoje é tudo muito fácil. A rede mundial me deixa à disposição tudo o que eu preciso e o que eu não preciso. Conheço muito mais coisas hoje, claro, mas não sei se essa moleza toda é boa pra mim mesmo.

Antes pelo menos eu tinha que correr atrás do que me interessava.
Hoje só me resta ficar aqui sentado. Na frente do computador.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Vida De Heterótrofo




De vez em quando me olho no espelho e não entendo nada do que enxergo. A imensidão do inexplicável cai sobre mim. Sabe aquela sensação de não saber quem se é, o que se vai ser, pra que ser, essas coisas? Eu não me questiono sobre isso, mas sinto que meus sentimentos apontam para este caminho.

Então caminhava eu, direção centro - Rio dos Sinos, cruzando a avenida da igreja, que me levaria à ponte antiga (aquela que a mãe Dinah disse que cairia), isso era umas três da madrugada. Tava voltando do Mack Bar, meio bêbado, meio sóbrio. Então aconteceu...
Notei que na praça se encontrava um cara que ficou me olhando (observe no mapa), e começou a caminhar na minha direção. Claro, pensei, me fudi. Mas a única coisa que não me passou pela cabeça era que quem queria ser fudido era ele. Cruzei a rua (pontos azuis, no mapa) e pensei... "vou parar e mijar no muro da rodoviária. Se ele vier atrás de mim, é assalto mesmo, ai eu corro pra estação da Brigada, ali na rodoviária mesmo". Desci as escadinhas, parei próximo à uma árvore, tirei o Baudelaire pra fora e comecei a mijar. Quem sabe, eu também poderia mijar nele, se ele me assaltasse.
Então lá veio ele. Atravessou a rua, me olhando. Desceu as escadas, passou por trás de mim, parou um pouco adiante e ficou me olhando. Olhando, mais principalmente, para o grandioso Baudelaire. Olhei pra ele, ele me olhou. Momento tenso. Apontou o dedo indicador para a própria boca e falou, numa vez só:

- Posso dar uma chupadinha?

Fiquei pasmo. Na hora só não me caguei porque as fezes não estavam prontas.

- Não... - respondi meio atravessado. Eu esperava tudo, menos essa pergunta.
- Mas eu tenho camisinha! - insistiu ele.
- Claro que não.

Botei o Baudelaire pra dentro da cueca, subi as escadinhas e me mandei embora.
Ficou só uma sensação esquisita de surpresa e aquela pergunta na cabeça...

- Posso dar uma chupadinha?

terça-feira, 6 de maio de 2008


Às vezes eu pego o ônibus de manhã e não sei bem qual será minha reação ao contato humano. Vou o caminho todo pensando se estarei de mau humor, ou estarei de bom humor. Só saberei ao dar o primeiro "oi" do meu dia. Que acontece quando eu desço do ônibus e meu colega de trabalho me cumprimenta. Geralmente a sensação nesse momento, a primeira palavra a dizer no dia para o primeiro outro humano que encontrar na rua, é de um monte de fogos de artificio explodindo dentro da barriga. É um "e ai" nauseado, nojento, simbólico e desprezível. É um misto de ode ao escárnio e ódio pela humanidade. É massacrante ter de pronuncia-lo. Preferia nem dizer, mas não tem como. Tento adiar, mas não consigo. De qualquer forma terei de pronunciar algo logo depois, mas gostaria que não fosse logo ao pisar em terra firme.

No ônibus, as pessoas são apáticas. Sempre as mesmas. Caras de bunda, outras com caras e bunda, (enorme, realmente). São pessoas indo trabalhar. Nenhum estudante. Todas carregando o mesmo penar. Que inferno a obrigação do trabalho. Mas no mundo capitalista, só assim mesmo. Tem que se foder, dar tudo de si. E faltar de vez em quando. Ou pedir demissão. Mas na demissão as coisas ficam chatas sóbrias: eu não presto pra muita coisa a não ser estar vivo. Não tem nada pra fazer. Nem dinheiro pra ter o que fazer!

Que merda pegar ônibus de manhã.

EPI é o Caralho! Foto é que é o Canal!


Gambiarra!
É assim que traduzo minha vida em poucas palavras e faço um apelo aos técnicos de plantão que não tentem facilitá-la querendo colocar eixos nos pontos ferrados dela.
Quero viver.
FODIDO, mas viver sendo eu mesmo e martelando pregos onde deveria haver parafusos, lavando com água o que deveria ser lavado com solvente e fumando... bom, o que eu fumo pouco importa, mas devo admitir que odeio cigarros!

Ora essa, e se eu for atropelado? E se eu morrer? Se foda o mundo. Logo ele termina. Mas pelo menos não deixarei essa vida incompleta vivendo a vida dos outros, como quase todos fazem. Você deve fazer isso também, admita. É cara, a vida é foda.

Hoje deram uma palestra sobre EPI na minha empresa. Pra quem não sabe, EPI = Equipamento de Proteção Individual. Pra quem tem preguiça de pensar, EPI = Luva, guarda-pó, óculos de proteção... Enfim, tudo muito bom tudo muito bem, a palestra foi extraordinariamente entediante, cochilos aqui, cochilos ali, me disseram tudo aquilo que eu já sabia e colocaram enfase nos pontos mais óbvios (sindrome do palestrante). O que mais agradou (a mim ao menos) foi a palestrante que era bem bonitinha (até certo ponto) e a série de fotos nonsense que rolou após a palestra, de acidentes em geral.

Cara...

Eu trabalho criando tinta. Mexo com solventes, a coisa mais perigosa é o agitador, que funciona como uma furadeira, mas que é usada pra mexer a tinta. Me senti um alien vendo fotos de *pessoas destroçadas por uma caixa gigantesca que caiu em cima; *pessoas que levaram um choque tremendo em redes de alta tensão e se tornaram o revés do Michael Jackson; *pessoas com as mãos decepadas; *um ser que subiu numa privada e a privada quebrou, penetrando cacos pelo corpo todo do infeliz; enfim, uma série de imagens que, se não ajudaram NADA, pelo menos serviu pra deixar todos comentando a respeito. O EPI que é bom ficou só na memória, e enfim, entra pros anais deste blog.

Caramba, estou juntando idéias para ir dormir.
Pra mim, na verdade, dormir não faz sentido nenhum. Sim, eu sei que é bom, gostoso, agasalhado e prazeroso, mas pô, eu podia estar fazendo algo mais interessante, pra variar.
Vai chegar o dia em que o homem não precisará mais dormir, e - espero eu, o turno de trabalho não terá horas adicionais! Então seremos felizes de verdade, podendo viver E trabalhar ao mesmo tempo!
Não é demais?
Mas bobagem, dormir é e sempre será um problema.
Digo isso porque neste final de semana chuvoso eu só fiz dormir. Credo, foi dificil levantar depois de tanto tempo na horizontal. E o preguição? Desgraça. Quero que o sono desapareça.
Será que alguém me dará apoio nesta teoria?
Ah, vão dormir!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Ressacão Páscoalino!


Deito na minha cama, ressacão pós-páscoa, onde a cerveja e o chocolate reinaram plenamente entre edredons ensopados de suor e notebooks super-aquecidos.

(Lentamente peido).

O fedor se esvai pelos quatro cantos, minhas ratas quase desmaiam. As espinhas do meu rosto saltam pela epiderme afora, querem ar, querem ser livres e vagar pelo mundo como mosquitos da dengue. Quero água, mas está muito quente pra caminhar pela casa. Então deito e escuto um pouco do mundo lá fora enquanto tento me concentrar.

Olho então um filme. EU SOU A LENDA. Eu sou a lenda? Whatafuckin lenda? Eu pessoalmente não entendi. Mas o filme é bom. Mas deveria ser EU SOU A CURA. Lamento quem não viu.

Serepenteio entre sites da Internet. Tô cansado de MSN, tô cansado de estudar e trabalhar. Tô cansado de querer achar algo pra baixar, então baixo mais um filme - Burial Ground, Nights Of Terror, terrorzão italiano da mais baixa tosquice, de cérebros voando e corpos apodrescendo em movimento, zumbis alucinados e piradões. Quero é ir dormir às 2 da manhã pra me acordar cedo no outro dia.

As coisas agora serão mais fáceis. Posso escrever meus posts no meu quarto.

Temos muito o que fazer agora.

sábado, 13 de outubro de 2007

A Época em Que a Androginia Imperou...


Ontem participei de uma festinha entre amigos, onde bebemos, conversamos, ficamos bêbados e olhamos uma sequência de clips muito interessantes.
Não sei onde anda hoje em dia, mas a inspiração era algo que fluia com uma certa intensidade nos meios do eletropop dos anos 80, o que é um verdadeiro milagre, pois os anos 80 foram um poço de mau-gosto, retrato de um país em plena ressaca do período de ditadura militar e com completa falta de investimento estrangeiro (coisa que rolou direto nos anos 70). Algo se salvou, e posso identificar e dar nome aos bois: Depeche Mode, Erasure, A-ha, todo esse povo que seguia uma linha mais pop e que serviu de porta de entrada pra muita coisa boa nos anos 90, caso este do Suede, por exemplo, que serviu pra ilustrar o texto.

Onde anda essa vontade de fazer coisa boa no mundo pop? Estou cansado de Fergies, desse pessoal fabricado que anda em voga atualmente. Parece que o declínio musical atingiu seu auge durante os anos 2000. Acompanhados do funk e dessa coisa toda que embrulha nossos amados estômagos.
Que venham novos dias para a música. Volte Strokes! Volte Franz Ferdinand! E nos livre do mal. Amém.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Aquela Sensação de Domingo...


A facilidade que algumas pessoas possuem de nos deixarem putos da cara, e que fazem as coisas exatamente para encherem nosso saco, é um reflexo de suas próprias imbecilidades, de suas vidas frustradas e lamúriosas.
A paciência nos é um bem volátio, que não dura muito tempo. E quando se esgota, se rompe como uma barragem que já aguentou por muito tempo a força da água.

Digo isso porque trabalho. E tenho patrão. Patrão é uma espécie de personal-idiot, que nos incomoda mais que piolho, mais do que os pêlos do saco nascendo depois de serem tosados. Patrão é uma praga que se alastrou pelo mundo, e isso muito tempo antes da era industrial. Os feudos, as capitânias hereditárias, até mesmo os primitivos homens das cavernas possuiam um manda chuva chato pra caralho, que só incomodava.

Mas o trabalho, se tira todo o tempo que temos pra viver, pelo menos dignifica o homem. Sim, eu acho um saco ficar sentado em casa coçando. No fim do dia tenho a sensação de tempo disperdiçado, sensação de que faltou alguma coisa. Aquela sensação de domingo. Aquela sensação de "preciso trabalhar".

Sei que a maioria dos vagabundos ai vai se incomodar com essa declaração, mas trabalhar faz bem.
Pena que são tantas horas por dia. Podiam ser menos, não? Assim poderíamos trabalhar e viver bem ao mesmo tempo!!!

Mas enquanto esse dia não chega, continuarei aturando um chefe chato, que só serve pra incomodar. Afinal, sempre tem pro fiofó dele também, e não sou só eu que levo ruim todo dia.

Sorte de quem não tem patrão e tem dinheiro.

O que não é meu caso.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Camadas de Teias de Aranha...


As aranhas adoram lugares pouco frequentados e frios.

É como anda meu blog. Parado, prestes a capturar a primeira vítima que passar, preparado, sempre seguro de sí mesmo.
Mas quando a vítima passa, pula, tenta agarrar a coitada, trança as pernas, se desequilibra e se esborracha toda no chão.
Dear god, onde está toda a vontade, onde está toda a energia de outrora, quando meus textos eram melhor organizados e queriam dizer alguma coisa? Quando meu blog era atualizado de temps en temps? Quando o trabalho e os estudos não me tiravam 80% do meu tempo?

Não sei.

Mas sei que virei aqui atualizar ás vezes.
E tenham saco pra esperar, caros confrades.