quarta-feira, 18 de maio de 2011

Bom dia!

Todo dia de manhã eu chegava pra trabalhar e aquela voz soava:


- Bom dia!


Na maioria das vezes, no auge da minha amargura, eu simplesmente passava reto, fingia não ouvir, na esperança de que no dia seguinte aquele martírio não se repetiria. Eu odiava ter que falar com alguém no caminho até minha mesa. Meu serviço era solitário, assim como eu, e eu não via necessidade das coisas serem diferentes. Eu queria a solidão, e então ela me abraçava com seus braços vazios. Mas os outros pareciam não entender, e toda manhã aquela mesma voz repetia:


- Bom dia!


Alguns dias em que o bom humor me acompanhava, eu até respondia. Talvez fosse este o meu mal. Dava brechas. Deixava em aberto a sensação de que eu era acessível, que eu até conversaria, se viessem até mim. Mas a verdade é que nada me atingia, ninguém me importava, e eu odiava ter que dar bom dia para alguém que eu mal conhecia, alguém que eu sabia simplesmente que, assim como eu, passava boa parte da sua vida sentada numa mesa separada de todas as outras pessoas. Meu maior mal era ter o caminho que levava da rua até a minha mesa atravessando exatamente a sala onde ela ficava, a mesma maldita sala onde todos os dias eu tinha que passar, sempre torcendo pra que ela estivesse doente, em casa, ou mesmo no banheiro, cagando ou fodendo com algum colega de serviço. Mas isso nunca acontecia, e todos os dias aquela mesma ladainha se repetia. Eu saia de casa já nervoso, sabendo que em pouco menos de duas horas eu seria confrontado com esse estúpido "bom dia" que não me deixava ficar descansado.


Ela nem bonita era. No começo eu não pensei muito a respeito, mas ficava incomodado. Eu trabalhava alí já faziam muitos anos, e aquela mesa era sempre a mesma mesa vazia. Quem diria que um dia os grandes mandantes do serviço público contratariam alguém pra cuidar daquele arquivo velho, sujo e esquecido? Eu mesmo jamais havia pensado na possibilidade, e aqueles foram anos felizes, onde eu não encontrava ninguém entre o caminho que eu fazia de casa até a minha mesa de trabalho. Ao menos ninguém que me conhecia. De vez em quando pessoas tentavam falar comigo. No metrô, pessoas de idade vinham falar dos seus problemas ou de qualquer assunto trivial que uma pessoa de idade possa vir a tratar, mas não me interessava. Eu não me interessava nem por assuntos de pessoas interessantes, imagina de uma geração anterior à minha, de tantos preconceitos e opiniões desimportantes! E eu me espelhava neles. Sempre cheio de preconceitos e assuntos desimportantes, eu me via neles. E não gostava. E eu sempre via meus defeitos nos outros, afinal, não era só pessoas de idade que me atazanavam. Até mães com crianças no colo me incomodavam. Eu odiava esse tipo de gente que acredita que, porque está com um filho no colo, se achava no direito de falar dos outros.


- Olha filhinho, o titio tá lendo uma revista, pergunta pra ele que revista é!

- É Anal Total, minha senhora.


Ou ainda aquelas que ficavam com o nenê virado pra mim, mexendo nas minhas coisas enquanto ela, apaticamente, só falavam:


- Filho, não mexe nas coisas do titio.


Ora, muito da minha raiva era catalisada, praticamente drenada, nestas situações. O que me deixava disposto pra trabalhar em paz. Não havia incômodos no serviço que fossem maiores que os incômodos que a humanidade, que os seres humanos me propunham e me submetiam. Trabalhar era tranquilo, difícil era me adaptar à vida. E então, como uma barragem que se rompe, inundando a calma das pradarias, aquela mesa foi limpa, e um computador foi instalado, uma cadeira nova foi trazida, e uma voz que se tornou meu martírio também se instalou naquela mesa. Todo dia ela soava pra mim, como as trombetas dos portões do inferno:


- Bom dia!


Eu já começava a não achar mais os dias bons. Começava a me incomodar aquela história de ter que dar bom dia todas as manhãs, afinal, meus dias eram bons, e eu não queria ninguém me desejando algo do qual eu já usufruísse. Comecei a perceber que eu já não trabalhava mais da maneira que eu deveria, disposto e com vontade. Comecei a tomar café em excesso, talvez um reflexo da minha angústia que se abatia sobre mim como um urubu, uma doença que se acometia contra mim como uma provocação. Comecei a vir trabalhar com vontade de não vir, ou de criar um buraco na parede pra não ter de atravessar aquela sala. Pensei em comunicar à chefia, mas o que eu poderia dizer? Que não queria aquela funcionária alí porque meus caprichos me impediam de me relacionar com uma voz me dando bom dia? O que eu poderia fazer, além de fazer de conta que aquela voz fosse um fantasma, uma assombração que pairou sobre meu setor, um sopro de ar que escapou da rua e se infiltrou pela janela? Eu poderia muito bem correr dalí. Eu poderia sumir. Eu poderia... eu poderia... lavar as mãos. O sangue escorria. Lavaria minhas mãos na bacia de Pilatos. Sim, era isso que eu faria. Arrancaria a faca de seu pescoço, tão logo o corpo se tornasse inerte, desesperado, golfando sangue para todos os lados. Eu arrancaria então aquelas cordas vocais, daria bom dia à elas! Eu poderia dormir com o som da garganta sendo perfurada, aquele grito rouco que se perde por não achar mais a saída, que engasga na garganta. Um som borbulhante, o grito silencioso da dor dilacerante arrancado de suas entranhas, a visão de dois olhos perdendo o brilho em meio ao sofrimento.


No dia em que eu sair daqui onde estou hoje, deste quarto branco e solitário, poderei finalmente trabalhar em paz.



2 comentários:

Elise disse...

Foda.
E modéstia à parte, é meu namorado :)

Anônimo disse...

Demais. Toda vez que leio esse texto, em todas as vezes q leio, parece q todas as vezes são primeiras vezes kkkkkk Tu escreve muito bem, cara!